Na vastidão azul daquele meu lençol, tão asseado e bordado com nós de marinheiro e âncoras de lá pra cá, à beira mar, fui derrubado na areia.

lí Capitães da Areia de Jorge Amado

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Dom e Mercedes – O cigarro

Uma história por três pontos de vista, por mim, Thaíssa e André.

E dançaram. Quando dançavam, todos paravam. Todos observavam. Todos sentiam. Quando dançavam, nada mais importava. Todo o furor dos espectadores, que aplaudiam e gritavam fervorosamente, era convertido em um silêncio cortante na mente dos dois. A química entre Mercedes e Dom era óbvia até para o mais ingênuo dos tolos. Por entre o vestido esvoaçante e os rápidos movimentos certeiros, seus lábios ousaram tocar-se por uma fração de segundo. E, naquele instante, as pernas dela tremeram por uma fração de segundo ainda menor. Porque nada nunca deveria estragar a dança.
– “Vamos fingir que essa música não vai acabar. E não precisaremos ir embora nunca.”
Essas palavras, sussurradas por Dom, acompanhadas pela mão dele deslizando levemente por debaixo de sua saia, levaram Mercedes a um nível de êxtase ainda não conhecido por ela. O pensamento de converter a dança pública, no meio do salão, em uma dança íntima, no camarim de Dom, passou pelas cabeças dos dois mais de uma vez. Como sempre acontecia quando dançavam juntos. Mas dessa vez era outra coisa, algo muito mais forte e incontrolável do que eles já sentiram antes. Já era difícil até se concentrar nos passos. Foi a dança mais longa de suas vidas.
– “Se pudesse ver o animal em que você me transforma… Eu segurei, mas você acabou o libertando.”
Mercedes dizia, quando os já estavam sozinhos. O icônico vestido branco, aberto nas pernas, justo na cintura e apertado nos seios, jogado no chão enquanto ela violentamente rasgava a camisa dele.
Algum tempo depois, Dom acendeu um cigarro. Mercedes havia negado uma tragada quando lhe foi oferecida. Ela pensava e se torturava sobre o que os dois haviam feito, entregando-se à luxúria dessa forma. Finalmente, Mercedes se levantou e se vestiu. Ia virar-se para se despedir, mas achou melhor não o fazer. Maquiou-se, murmurou algumas palavras de adeus e poucos passos depois estava a caminho de sua casa.
Antes mesmo de estacionar o carro, seu telefone tocou. Atendeu mecanicamente sem reação alguma. Lágrimas se formaram em seus olhos e Mercedes se pôs novamente dirigindo o mais rápido que podia, a caminho do hospital. A camisa rasgada, o vestido, os gritos e ovações do público, a dança – de repente, nada mais importava. Dom estava em uma cama de hospital entre a vida e a morte.
Mercedes acendeu um cigarro.

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Mercedes – Um batom

Uma história por três pontos de vista, por mim, Thaíssa e André.

O batom vermelho a deixara mais viril. Não que olhassem para sua boca, suas pernas teriam de estar belas e não seu rosto claro.
Aqueceu a voz e sorriu para sua própria imagem, diante do espelho antigo. Fitou o relógio. Espantou-se. Correu. Chegou ao carro. Entrou. Dirigiu. Quase bateu. Acelerou. Estacionou. Chegou. Suou. Entrou. Sorriu. Abraçou. Sentou. Passou batom.
– Mercedes! Por Favore, mio musa.
– Não enchas, Fiernando! Estou indo!
Arrumou as madeixas da cor da asa de graúna e os olhos negros pintados, a íris se confundia a pupila. Olhos de tubarão em uma mulher alta, latina, da cor de “praia”. Deslizou um vestido branco aberto nas pernas, justo na cintura, apertado nos seios. Ombros pequenos, morenos e lisos. Clavícula notória, a moça magra agitou os cabelos. Passou batom. E foi puxava violentamente por seu ‘agente’.
– Mercedes, por cá, há de bailar con Dom. Conheces Dom ?
– Sim, já dancei algumas vezes com ele.
A cortina se abriu, o homem entrou no palco com elegância e sabedoria. Mercedes se arrumou dentro da coxia, não sabia como olhá-lo. O desejo fora espantoso. Algo a atraía, ou o volume da calça, ou a postura de dançarino excêntrico!
Um sorriso de canto brotou-lhe a face, sentiu um arrepio percorrer-lhe por todo corpo, levantando os pelos. Um por um. Travou as pernas, e as abriu novamente já pronta para dançar. Desejou-se sorte e tesão. Para a dança ser espetacular não basta saber os passos.
Se aproximou do parceiro, trocaram olhares e sorrisos. Dom a puxou depois de uma reverencia clássica. Juntaram as mãos, as curvas mais próximas e a respiração unificada.
– Ola, Dom! – Ela sussurrou ao pé de seu ouvido masculino.

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Dom – O suspiro de Mercedes

Uma história por três pontos de vista, por mim, Thaíssa e André.

Tirou do bolso o chumaço de maconha e debulhou na mão esquerda apertando a erva até se desfazer num pó áspero com a mão direita. Tirou o papel de seda do outro bolso, equilibrando a erva na outra mão, e a depositou no papelzinho dobrado ao meio, direto no vinco formado da dobra. Enrolou com cuidado e apertou o começo com um giro mimoso, já tirando do bolso a caixa de fósforos. Com o baseado na boca acendeu o primeiro fósforo o riscando na lateral da caixinha mas apagou com um vento a noroeste. Acendeu o segundo tampando o vento com a mão em concha e dessa vez mais perto do rosto, que tocou o levemente esverdeado papel.
-Fuego!
Disse desajeitado movendo com a língua o cigarrinho pro canto da boca.
O primeiro trago. Os olhos se fecharam, a fumaça invadiu a garganta e prosseguiu corpo a dentro. Percorreu desde os malditos pulmões até o cérebro anestesiado.
-Dom! Anda hombre!
Dom segurava com a ponta dos dedos o final do baseado e o dispensou com um peteleco o jogando pro canto do camarim. Levantou e olhou-se no espelho rodeado de lâmpadas, nem todas a funcionar. Ajeitou o bigode passando a mão da base do nariz até o fim do queixo, empurrando os fios rebeldes pra baixo. Tirou o roupão que vestia e seguiu para a porta soltando o último silvo pelos lábios, cheio daquela fumaça cinzenta e pesada, a deixando trancada na sala vazia.
-Estas bela Mercedes!
-Dom, no seja galante! Dance!
Luzes vermelhas corriam pelas pernas de Mercedes e Dom até fita-los nos olhos que a ignoravam e só tinham a si mesmos. A triste luz se apagou e uma dúzia de outras luzes, dessa vez entre as vermelhas algumas amarelas, surgiram a fita-los.
Forçados arremeteram os olhos pro alto e encaram apaixonados, as lanternas covarades. As pernas dos dançarinos escorregaram para trás do corpo em marcha lenta abrindo um mesmo ângulo entre eles e o chão de madeira. As unhas de Mercedes fincaram nas costas de Dom quando ela foi violentamente colada ao corpo dele, quase tocando os lábios. A platéia urrou em palmas!
No silêncio dos dois coube o suspiro de Mercedes:
-Marijuana?

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quando viu já era passarinho
deixou de lado a bolsa no armarinho
pra construir o próprio ninho
e botar lá os seus ovinhos
quando viu já era menino,
deixou pra trás as penas e redemoinhos
pra voltar pra vida de aluno mesquinho
e escrever poemas no caderninho

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vens

“Deixe um pouco de seu sangue cozinhar no orvalho de uma sexta feira com lua cheia”
-Ridículo!
-Isso é sério!
-Ahhhh, por favor!
O casal discutia. O fim de tarde se esvaia no horizonte e um livro “Invocando etéreos” repousava na mesa, aberto.
-Qual é em Jana? Joga essa merda fora! Em que sebo você achou esse lixo?
-Eu achei!
-Como achou?
-Foi na caixa de correio, acho que entregaram errado… Não tinha endereço nem nada.
-Isso é crime sabia?
Um silêncio desconcertante os separava. Jana encostada na janela observava a macieira e seu namorado fitava o livro a uma distância segura.
-Lê o resto…
Jana virou-se e recomeçou a ler, não sem antes mostrar ao amado um sorriso de aprovação. Ele ignorou desviando o olhar.
-“Quando o líquido, primeiramente emitir um tremor e depois ser sugado por uma língua invisível, chame por seu nome três vezes.”
Jana não ousou encará-lo novamente.
-Olha… Não acho que isso vai dar certo. Chega, pra mim chega!
-Por favor! – Disse ainda sem olhá-lo.
-Mas que fixação é essa!
-Espera!
O amor abriu a porta e entrou no carro, trancando a porta.
-Aonde você vai?
-Não interessa! Eu sou mais adulto que você, não fico brincando de mágica não!
-Espera!
O vidro do carro abafava as duas vozes.
O carro partiu com o homem. Jana ficou sozinha, plantada, junto com a casa e a macieira, naquele terreno enorme cheio de grama, grama e grama até cansar os olhos.

O orvalho molhava os cabelos e ombros cobertos pela fina lã do casaco de Jana. As gotículas pairavam sob a atmosfera cinzenta.
A faca fria cortou o pulso que a pouco se escondia debaixo da manga. O atrito entre o rígido e o frágil, o quente e o frio, o real e o irreal firmou-se. O que restou foi o sangue tenro que esfumaçava, escorrendo por um filete rubro o braço cândido, pingando irremediavelmente na tigela. Um suspiro de aflição acompanhava cada pingar, o rosto se contorcia num minguar de prazer e dor.
Aos poucos o sangue encheu metade do recipiente, assim como a garoa que, intensificada, embaralhava sangue e água num jogo incerto. Quando Jana julgou ser o suficiente rasgou um pedaço de lã com a faca e o amarrou no pulso, latejando ao trotar do coração.
Tinha que esperar. Essa era a sua sina. Esperar pelos pais na casa vazia, esperar o namorado voltar das suas tristezas, esperar o fim daquelas férias tediosas e enfim esperar pelo incerto, o indesejado, o fantástico.
Quase sempre ela nunca conseguia. As coisas se esvaiam e se perdiam pelo caminho antes de chegar a ela. Culpava seu lado passivo e dominado, era sempre carregada e dependente dos outros. Era frágil e inútil, poucas foram as decisões que tomara sozinha. Tinha que ter sempre alguém ao seu lado pra se apoiar e não cair.
Uma lágrima trouxe o tremor e a língua sugou o líquido para a garganta invisível. Ele estava lá!
Que nome chamar? O que falaria?

O derrapar de pneus fez Jana esquecer o ritual e os milhares de nome que pensou em chamar. O som vinha de longe, mas a preocupava, pois a estrada mais perto de lá já fazia parte do terreno de seu pai. Só podia ser seu parceiro que voltava.
-Raul – Sussurrou.
Dois olhos amarelos cresciam em sua visão, cada vez mais próximos pareciam desgovernados. Era o carro de Raul, estava bêbado ou nervoso demais, não era de correr. E porque atravessava o gramado e ia em direção a casa?
-Raul! Cuidado!
Jana salvou a tigela de sangue da mira do carro e correu, não sendo atingida por pouco.
O carro continuou cego por seu caminho até violentamente arremessar-se na macieira.
-Raul! – O grito ecoou em três mundos diferentes.

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“Aquela noite a minha última música tocou!”

O que era?
Parecia um dragão tatuado. Não! Dois dragões se entrelaçando… Percebi quando encontrei duas cabeças.

“Não vai parar de olhar?” Ela falou.
“Posso?” Eu disse.
Ela riu daquilo. Mas que merda, ela parecia me sugar. A energia que tinha, que me mantinha em pé e que me fazia falar, parecia compartilhada com a dela.

Alguém abriu a porta e som lá de fora entrou de prontidão! Ela se assustou e vestiu a blusa que quase não vestia.
Eu logo tratei de me esconder atrás dum barril de chopp. Covarde!

“Vadia” A voz masculina falou
“Me deixa em paz, se enxerga” Ela retrucou.

Logo os insultos se transformaram em beijos e calafrios. Meu corpo suava e meu coração acelerava. Não sabia se era ciúme ou medo.

Ouvi um suspiro mais profundo, como se faltasse ar, sei lá! Profanei o olhar nela e lá estavam os dragões manchados de sangue quente. O corpo soltava um vapor.

Corri para a porta, de relance vi a faca brilhar na mão do careca que se dizia “poeta”, era ele mesmo! Canalha! E eu um covarde!

Abri a porta, a luz verde do salão enorme me fustigava os olhos, a batida da música me doía os ouvido além das lagrimas que corriam minhas bochechas.
Um agarrão pela jaqueta me tirou da corrida, estava morto!
Mas a sorte ainda era minha, ainda.
Era um maluco, totalmente dopado distribuindo o LSD dele pra qualquer um. Não recusei horas! Engoli com a cerveja que peguei na mão da menina do lado e corri!
A música era Shadowplay, irônico! As ruas esperavam por mim lá fora!

Mas infelizmente, elas iriam esperar mais um pouco.
Minha cabeça começou a ficar agitada e a visão não parecia mais a mesma.
Todas as faces daquele galpão caótico e barulhento estavam me encarando de maneira diabólica. Olhei para trás, olhei também para os lados, e nada do careca.

Joguei a cerveja quente no chão, já que ela não me agradava mais. E então decidi procurar por um banheiro. Masculino ou Feminino? Tanto faz, queria eliminar o peso que estava dentro de mim.
.
As luzes psicodélicas já estavam me atormentando e contribuindo para o meu mal estar um tanto prazeroso. Para chegar ao banheiro, foi preciso andar cambaleando e ao mesmo tempo empurrar e esmurrar as pessoas. Elas pareciam estar fora de si próprias…
Mas eu não as culpo, eram apenas animais sedentos por sexo, drogas e música… Assim como eu naquela noite.

O banheiro tinha aspecto escuro se apresentava na sua forma mais detestável e nojenta possível. O odor era um tanto desagradável, mas enquanto eu urinava naquela privada imunda e cheia de merda humana, eu conseguia de certa maneira agüentar o cheiro. Subi o zíper. E logo depois, me olhei no espelho que tinha uma mancha embaçada e escura. Vi que meus olhos estavam pesados… ‘’Eu estava chorando?’’
Não me conformo… Havia derramado lágrimas por uma prostituta fedorenta. Devo admitir que a beleza oriental da moça era rara, mas seu valor era um tanto desprezível.
A beleza estava morta. Seu corpo havia sido esfaqueado e eu não tinha feito nada para impedir o tal assassinato.

‘’Oh Meu Deus! Ela esta morta!’’ Gritou uma mulher, lá fora na pista após ter encontrado o corpo que eu toquei horas atrás. Bom, era hora de fugir daquela festa, balada, seja o que for o local em que eu estava.

Abri a porta do banheiro dando risada. Minha fala saia um tanto embolada, pois parecia que a minha língua havia inchado. E eu pensando que a minha vontade de urinar tinha passado… Enganado, eu me vi urinando nas calças. Ignorei rindo.
O efeito do LSD já estava presente.

Logo de primeira. Percebi que a confusão não estava somente em minha mente, mas também dominava a pista de dança. Pessoas corriam loucamente para todos os lados.
Meu corpo devia ter batido em umas mil pessoas. Mas era como se eu não ligasse… Alias tudo estava em câmera lenta, não? Bom, um grito que veio na minha direção me chamou atenção. No meio de tanto barulho, aquela frase foi a única coisa que eu consegui escutar com perfeição. A frase veio de um jovem rapaz calvo e preocupado.

‘’Foi ele! Ele esfaqueou a garota! Não deixem que ele escape!’’
Em seguida, eu olhei para os lados e observei tonto uma multidão de pessoas furiosas correndo violentamente até mim. Tentei falar algo, mas nem eu entendi muito bem, o som que eu fizera com a boca.

Um impacto atingiu meu crânio com força. No momento eu estava caído e olhando para as luzes no teto. E novamente, todas as faces daquele galpão caótico e barulhento estavam me encarando de maneira diabólica. Meu corpo estava sendo pisoteado e tratado com uma violência mútua e vingativa. Meu rosto encharcado de sangue estava alegre e subitamente possuído pelo efeito maldito daquela droga. Não consegui me defender dos grandes golpes aplicados em meu estômago, genitais, nos braços e pernas. A minha busca por todos os prazeres daquela noite poderia terminar ali naquela pista de dança medíocre ou iria continuar depois que eu morresse. Alias… Nunca pensei que estaria narrando a minha própria morte para você. Nem meus próprios prazeres e sentimentos.

Por Isaac de Moraes e Fernando Sararoli

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Viva o contrário e os contrariados, pois o mundo é feito de insatisfeitos

quando fazer aquilo que quiser for lei, escravidão será revolução!
(em breve um pouco mais de indignação!)

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Bar(sil)

O bar cheirava a compota de cebola e salsicha, e arroto depois de várias cervejas. Tudo isso num bafo na forma de um grande bloco, a flutuar pelos azulejos. Era bem arejado, com dois arcos enormes na entrada, mas o cheiro parecia grudado naquele pedaço!
À noite, como um cão vadio, o cheiro saia a ladrar pelas calçadas.

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love undivided

Essa é foto incrível!
Me faz lembrar de um tempo sem muros e sem divisões! Tempo que o sol brilhava sem interrupções!

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