Dom – O suspiro de Mercedes

Uma história por três pontos de vista, por mim, Thaíssa e André.

Tirou do bolso o chumaço de maconha e debulhou na mão esquerda apertando a erva até se desfazer num pó áspero com a mão direita. Tirou o papel de seda do outro bolso, equilibrando a erva na outra mão, e a depositou no papelzinho dobrado ao meio, direto no vinco formado da dobra. Enrolou com cuidado e apertou o começo com um giro mimoso, já tirando do bolso a caixa de fósforos. Com o baseado na boca acendeu o primeiro fósforo o riscando na lateral da caixinha mas apagou com um vento a noroeste. Acendeu o segundo tampando o vento com a mão em concha e dessa vez mais perto do rosto, que tocou o levemente esverdeado papel.
-Fuego!
Disse desajeitado movendo com a língua o cigarrinho pro canto da boca.
O primeiro trago. Os olhos se fecharam, a fumaça invadiu a garganta e prosseguiu corpo a dentro. Percorreu desde os malditos pulmões até o cérebro anestesiado.
-Dom! Anda hombre!
Dom segurava com a ponta dos dedos o final do baseado e o dispensou com um peteleco o jogando pro canto do camarim. Levantou e olhou-se no espelho rodeado de lâmpadas, nem todas a funcionar. Ajeitou o bigode passando a mão da base do nariz até o fim do queixo, empurrando os fios rebeldes pra baixo. Tirou o roupão que vestia e seguiu para a porta soltando o último silvo pelos lábios, cheio daquela fumaça cinzenta e pesada, a deixando trancada na sala vazia.
-Estas bela Mercedes!
-Dom, no seja galante! Dance!
Luzes vermelhas corriam pelas pernas de Mercedes e Dom até fita-los nos olhos que a ignoravam e só tinham a si mesmos. A triste luz se apagou e uma dúzia de outras luzes, dessa vez entre as vermelhas algumas amarelas, surgiram a fita-los.
Forçados arremeteram os olhos pro alto e encaram apaixonados, as lanternas covarades. As pernas dos dançarinos escorregaram para trás do corpo em marcha lenta abrindo um mesmo ângulo entre eles e o chão de madeira. As unhas de Mercedes fincaram nas costas de Dom quando ela foi violentamente colada ao corpo dele, quase tocando os lábios. A platéia urrou em palmas!
No silêncio dos dois coube o suspiro de Mercedes:
-Marijuana?

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Sobre Isaac de Moraes

Procurando por algo, continua incessante Sem saber o que seja, continua incompreendido Mesmo decidido segue errante
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