vens

“Deixe um pouco de seu sangue cozinhar no orvalho de uma sexta feira com lua cheia”
-Ridículo!
-Isso é sério!
-Ahhhh, por favor!
O casal discutia. O fim de tarde se esvaia no horizonte e um livro “Invocando etéreos” repousava na mesa, aberto.
-Qual é em Jana? Joga essa merda fora! Em que sebo você achou esse lixo?
-Eu achei!
-Como achou?
-Foi na caixa de correio, acho que entregaram errado… Não tinha endereço nem nada.
-Isso é crime sabia?
Um silêncio desconcertante os separava. Jana encostada na janela observava a macieira e seu namorado fitava o livro a uma distância segura.
-Lê o resto…
Jana virou-se e recomeçou a ler, não sem antes mostrar ao amado um sorriso de aprovação. Ele ignorou desviando o olhar.
-“Quando o líquido, primeiramente emitir um tremor e depois ser sugado por uma língua invisível, chame por seu nome três vezes.”
Jana não ousou encará-lo novamente.
-Olha… Não acho que isso vai dar certo. Chega, pra mim chega!
-Por favor! – Disse ainda sem olhá-lo.
-Mas que fixação é essa!
-Espera!
O amor abriu a porta e entrou no carro, trancando a porta.
-Aonde você vai?
-Não interessa! Eu sou mais adulto que você, não fico brincando de mágica não!
-Espera!
O vidro do carro abafava as duas vozes.
O carro partiu com o homem. Jana ficou sozinha, plantada, junto com a casa e a macieira, naquele terreno enorme cheio de grama, grama e grama até cansar os olhos.

O orvalho molhava os cabelos e ombros cobertos pela fina lã do casaco de Jana. As gotículas pairavam sob a atmosfera cinzenta.
A faca fria cortou o pulso que a pouco se escondia debaixo da manga. O atrito entre o rígido e o frágil, o quente e o frio, o real e o irreal firmou-se. O que restou foi o sangue tenro que esfumaçava, escorrendo por um filete rubro o braço cândido, pingando irremediavelmente na tigela. Um suspiro de aflição acompanhava cada pingar, o rosto se contorcia num minguar de prazer e dor.
Aos poucos o sangue encheu metade do recipiente, assim como a garoa que, intensificada, embaralhava sangue e água num jogo incerto. Quando Jana julgou ser o suficiente rasgou um pedaço de lã com a faca e o amarrou no pulso, latejando ao trotar do coração.
Tinha que esperar. Essa era a sua sina. Esperar pelos pais na casa vazia, esperar o namorado voltar das suas tristezas, esperar o fim daquelas férias tediosas e enfim esperar pelo incerto, o indesejado, o fantástico.
Quase sempre ela nunca conseguia. As coisas se esvaiam e se perdiam pelo caminho antes de chegar a ela. Culpava seu lado passivo e dominado, era sempre carregada e dependente dos outros. Era frágil e inútil, poucas foram as decisões que tomara sozinha. Tinha que ter sempre alguém ao seu lado pra se apoiar e não cair.
Uma lágrima trouxe o tremor e a língua sugou o líquido para a garganta invisível. Ele estava lá!
Que nome chamar? O que falaria?

O derrapar de pneus fez Jana esquecer o ritual e os milhares de nome que pensou em chamar. O som vinha de longe, mas a preocupava, pois a estrada mais perto de lá já fazia parte do terreno de seu pai. Só podia ser seu parceiro que voltava.
-Raul – Sussurrou.
Dois olhos amarelos cresciam em sua visão, cada vez mais próximos pareciam desgovernados. Era o carro de Raul, estava bêbado ou nervoso demais, não era de correr. E porque atravessava o gramado e ia em direção a casa?
-Raul! Cuidado!
Jana salvou a tigela de sangue da mira do carro e correu, não sendo atingida por pouco.
O carro continuou cego por seu caminho até violentamente arremessar-se na macieira.
-Raul! – O grito ecoou em três mundos diferentes.

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Sobre Isaac de Moraes

Procurando por algo, continua incessante Sem saber o que seja, continua incompreendido Mesmo decidido segue errante
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