Principezinho macaco

O elefante de pedra que colocava debaixo do travesseiro não a incomodava espiritualmente, mas na manhã seguinte sempre acordava com dores no pescoço. Cobria-se com um fino lençol, quase transparente, não fazia tanto frio como nas noites anteriores. Sonhava com seus atores, príncipes e tocadores de cítara. Criava seus filmes e seus romances.
A noite seguia agitada e ela permanecia deitada até seguir para a janela do quarto, que dava para uma grande avenida, fixando o olhar nos carros e nas pessoas que passavam.
O olhar perdido procurava por nada, vagando de ponto em ponto, até um pequeno vulto lhe cruzar o olhar e adentrar seu quarto, desprendendo uma mecha de seus cabelos. Assustada, se virou e procurou apoio no para-peito, com olhos arregalados, estáticos. Desgrudou da janela e a pequenos passos foi à procura da sombra.
No canto do quarto um homenzinho, com suas mãos e pés pequenos, comia um pêssego de forte aroma. Concentrado, retirava pedaço por pedaço, sem ligar para a presença de quem quer que fosse. As sombras dos móveis ocultavam sua cor e um lado de sua silueta, soltava alguns grunhidos além do som do pêssego sendo triturado e devorado por sua pequena boca voraz.
Surpresa pela total ignorância da figura para com ela cada vez se aproximava mais, tinha na mão, agora, uma de suas sandálias, caso fosse preciso usar de sua frágil força.
Vidrado o pequeno nada ligava e a menina, ciente de sua meditação, viu que o pêssego chegava ao fim. Nenhum pedaço foi negado, até os caídos no chão e aqueles entres os dedos.
Como um cavalheiro, espreguiçou-se e mostrou um grande rabo espichado. A menina moveu-se dois passos atrás.
Saindo das sombras a criatura mostrou-se como um pequeno macaquinho que a observava com giros contínuos na cabeça da direita para a esquerda.
Não sabendo o que fazer a garota murmurou um quase inaudível “fora”.
O símio voltou à escuridão e de lá trouxe um mortiço diamante do tamanho de sua mão. Faz uma elegante mesura e disse:
-Gentil dama, obrigado pelo jantar nesse canto de seu quarto. É difícil nessa cidade encontrar lugar tão aconchegante. E o pêssego… Ah que maravilha de fruta! Pude sentir seu cheiro a quilômetros daqui! Pois bem, aceite esse mimo!
Atônita a menina lhe abriu a mão e lá ele depositou a magnífica jóia.
Segundos depois já pulava pra fora de sua janela e de sua vida. De pé ela corre até a sacada e já não o vê mais.
Ao voltar-se para trás vê o espaço vazio entre dois cachos de uva na bandeja de prata. Fecha a janela e diz sorrindo a si mesma:
– Meu principezinho macaco!

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Sobre Isaac de Moraes

Procurando por algo, continua incessante Sem saber o que seja, continua incompreendido Mesmo decidido segue errante
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