a ânsia desmedida do calor

O calor se move com as mariposas.
Se alimentam de vida escassa e pólem, voam rotos, juntos, em busca de luz pra crescerem e se agigantarem.
O calor se apossa, toma de conta sem prévio aviso, se apodera, expande e precisa urgentemente de espaço.
Age inconsequente: Invadindo casas, suando, copos e corpos gelados, embolorando matéria e miséria.
Mas é bálsamo: Força idas à água, cora ombros incolores, abre os poros das flores, jogando no ar odores, entre outros mil fatores.
Em suma, é prévia de chuva.

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esparramada na mesa, a água formava o mapa da Austrália

um sinal: de que deveria limpa-la
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a teimosia eterna das ondas

Chegam duras e pesadas ou altas e suaves.
Surgem pequenas, engordam e crescem. Correm desvairadas.
Levam, quando delicadas, conchas e cacos em redemoinho.
Quando impetuosas, colares, pedras, barcos, braços, pernas e moças.
Quebram, sucumbindo diante o próprio peso: Dobram.
Seguem plácidas. Lambem, em circunferência, a areia seca e voltam.
Reprimidas, voltam ao mar, pai que as recolhe como roupas de volta ao cesto.
Incansáveis, correm, em léguas, grandes distâncias.
Não caminham reto, seguem num eterno vem-e-vai, que atrai e devolve.
Espumam como um sabão. Lavam a pele.

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o trabalho árduo do vento

Um dia, um vento veio de longe atravessando ruas vazias.
Rasgando o espaço entre as sarjetas, enchendo as calçadas uivantemente calmo.
Flutuando, pulou o portão sem freio e invadiu a janela desnuda com um sincero frio sereno.
Aconchegou-se no edredom. Entre as pernas do homem. Nos vãos dos armários e no piso estático.
Voltou a se agitar quando um vento irmão, particularmente igual, se mostrou na janela.
Como dois corpos não ocupam o mesmo amor, diz uma lei que se aplica, saiu por onde entrou.
Apressado, se esfregou nas folhas da laranjeira e na estrutura oca do mensageiro-dos-ventos, deixando um rastro sonoro de conforto.

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Resquício

Annex - Gable, Clark (Gone With the Wind)

A vida ganhando formato
Ávida por um novo estado

Desbarranca
Aos poucos se desprende

Se constrói assim
Ao contrário, das perdas
Cai, mas não abala

Eu deixo ir
Ela finge que se esvai

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new weird novel III

A caranga percorria os últimos quilômetros da estrada a beira-mar. Cortava asfalto, céu, ar e maresia, transpassando as janelas e mechas de cabelo ou girando pelos pneus.

Estacionou no gramado do outro lado da orla, desligou o rádio, fechou facilmente os dois vidros da frente e com dificuldade os dois de trás, destravou o pino da porta com a ponta das unhas, puxou o trinco.
A porta se abriu e ela atravessou: A água já submergia os pés, que já não eram mais pés, tornados em escama e azul, dissolvendo e diminuindo o tamanho da moça rapidamente. Ela era êxtase, e também peixe. Diminuto, gelado, escorregadio e arredio.
Moveu-se, com seu nadar geléia e embrenhou no primeiro cardume que viu passar. Era multidão, plural, cardume, mulher e sereia.
O carro tornou-se pedra e afundou.

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A fita mostrou os beijos e o casamento, a familia mimada e o ventre que permaneceria vazio até o fim da vida!

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new weird novel II

Tomou a pílula e atravessou: Os olhos mexiam de um lado pro outro tentando a achar um pouco de luz e com isso alguma forma, móvel ou não. O que via era escuridão. Os braços e pernas não se mexiam, assim como boca e tronco, tudo travado ou sequer existente.
Um peso parecia prensá-la, talvez por isso sentia-se presa. Foi então que sentiu aos poucos o peso diminuindo. A massa pesada saia gradualmente de cima dela, criando a expectativa de algum movimento, mas não, o alivio chegava, mas os movimentos ainda lhe eram privados.
Logo depois veio um pouco de luz, que chegava pelo lado esquerdo, diluída e rarefeita, também aumentando aos poucos.
Até que, como uma porta sendo aberta o ultimo pedaço de peso esvaziou-se, instintivamente causando nela um inspirar profundo. Daí viu: Um rosto feminino enorme a lhe fitar. Com olhos quase chorosos, uma boca murmurante, pele fina e maquiada nas bochechas e um cabelo louro e revolto, caindo pelas orelhas.
A voz não saia, restou apenas observar a moça linda que também a olhava.
Um suspiro e depois um choro constante afastou a jovem que pareceu correr para longe.
Os olhos presos viam um lustre colorido e véus multicolores a enfeitar o quarto ou sala.
Gatinhos, elefantes e coelhos de porcelana na estante, abajours com lâmpadas azuis e vermelhas. Tudo envolto numa neblina cheirosa, percebendo que o nariz também funcionava, que lembrava a efusão ou o queimar de alguma erva.
Ao olhar para o lado conseguiu enxergar o que tinha e onde estava. Um homem de cartola e smoking segurando um bebezinho num cenário florido sentados na grama e árvores ao redor. Quando olhou em direção a suas pernas viu um gigantesco vestido cheio de camadas, babados e laçinhos. Tudo, árvores, flores, pessoas, ela, tudo tingido de um sépia velho e borrado, cor de café quando seca no tecido e feno!
Tudo conjurado numa velha fotografia.

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batunel – Jahi & Knor

Jahi seguia com suas tralhas amarradas nas costas. Cobertores, comida, tigelas e roupas. Caminhava em direção a uma estrada coberta por um pouco de vegetação a beira de um desfiladeiro que vertiginosamente se endireitava até o vale, logo abaixo. No caminho retirava e desviava de alguns galhos a lhe roçar o pescoço e prender a coberta, dava uns puxões quando preciso. Continuava o caminho com cuidado, a pisar de vagar na trilha de pedregulhos no chão, que faziam escorregar.
Quando o sol se pôs Jahi encontrou um vão e lá, no umbigo da grande montanha, resolveu ficar e comer um pouco. Desamarrou da trouxa uma tigela de alumínio e uma cebola inteira cortou ao meio e depois cortou novamente em quatro partes e novamente cortou em oito, com um canivete tirado do bolso. Pedaços de carne de vitela foram retirados de outra tigela e misturados ás cebolas. Usou um pouco da folhagem seca que pegou no caminho e com alguns gravetos, conseguiu uma fogueirinha. Adicionou a ela o alumínio e a mistura.
A cebola, fritou com sua água a carne e transformou tudo num odor que escapava da fenda de Jahi e ganhava o céu estrelado, que anoitecera durante todo o processo de cozinhar.
A deusa da caça observava o homem por entre as estrelas, comendo aquele cheiro de cebola e carne.

Knor fechou a porta atrás de si e levou em cima do corpo a blusa felpuda feita das peles de algum animal. Nas costas, preso por uma fivela cruzando o peito um arpão. Não levava mais nada, no navio teria comida e moradia por um bom tempo.
Andava na crosta de neve que cobria as ruas e os telhados das casas vizinhas, além da sua. Sua bota, também feita de algum animal, protegia os pés da temperatura menor que zero e evitava congelar os dedos. O sol escondido por trás das nuvens era quase que fictício nesta época, o inverno corrente trazia uma nevasca a cada minuto, gelando o ar e o tempo, que também parava devido a estradas completamente abarrotadas de neve e gelo, mesmo assim Knor trabalhava, afinal, tinha uma família para zelar e os amava profundamente.
No fim da grande avenida da cidade de gelo o ladrar de alguns cães se intensificou e Knor seguiu em sua direção. Deixou algumas moedas com certo homem e se arrumou num dos trenós com os cães amarrados em duas fileiras à frente, eram quatro no total. Eles puxaram com um sinal de Knor. O trenó deslizou pelo gelo.
Embaixo daquela crosta de vidro um ser enorme e branco dormia um sono de séculos a apoiar a terra, o Leviathan.

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fu-tu-ro pt2

O calor já se mostrava na saída do avião. Ele tirou a blusa velha de lã que vestia e a carregou no vão das alças da bolsa de mão.
Não muito depois já estava num taxi e com poucas palavras mostrou o endereço do hotel ao taxista que seguiu viajem.
O hotel, barato, o satisfez! Era disso que gostava! uma cama um armarinho e uma tv sobre a penteadeira. Um banheiro com chuveiro, pia e sanitário. Sua janela pousava sobre o letreiro de neon, no quarto andar, molhando aquela noite que começava com um piscar incessante de azul e vermelho. Não demoraria ali.
Desceu a recepção com seu caderninho, que anotava de tudo, e dele retirou um numero ao qual ligou.
Com o inglês que tinha pediu para que chamassem Thaíssa.

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