Jahi seguia com suas tralhas amarradas nas costas. Cobertores, comida, tigelas e roupas. Caminhava em direção a uma estrada coberta por um pouco de vegetação a beira de um desfiladeiro que vertiginosamente se endireitava até o vale, logo abaixo. No caminho retirava e desviava de alguns galhos a lhe roçar o pescoço e prender a coberta, dava uns puxões quando preciso. Continuava o caminho com cuidado, a pisar de vagar na trilha de pedregulhos no chão, que faziam escorregar.
Quando o sol se pôs Jahi encontrou um vão e lá, no umbigo da grande montanha, resolveu ficar e comer um pouco. Desamarrou da trouxa uma tigela de alumínio e uma cebola inteira cortou ao meio e depois cortou novamente em quatro partes e novamente cortou em oito, com um canivete tirado do bolso. Pedaços de carne de vitela foram retirados de outra tigela e misturados ás cebolas. Usou um pouco da folhagem seca que pegou no caminho e com alguns gravetos, conseguiu uma fogueirinha. Adicionou a ela o alumínio e a mistura.
A cebola, fritou com sua água a carne e transformou tudo num odor que escapava da fenda de Jahi e ganhava o céu estrelado, que anoitecera durante todo o processo de cozinhar.
A deusa da caça observava o homem por entre as estrelas, comendo aquele cheiro de cebola e carne.
Knor fechou a porta atrás de si e levou em cima do corpo a blusa felpuda feita das peles de algum animal. Nas costas, preso por uma fivela cruzando o peito um arpão. Não levava mais nada, no navio teria comida e moradia por um bom tempo.
Andava na crosta de neve que cobria as ruas e os telhados das casas vizinhas, além da sua. Sua bota, também feita de algum animal, protegia os pés da temperatura menor que zero e evitava congelar os dedos. O sol escondido por trás das nuvens era quase que fictício nesta época, o inverno corrente trazia uma nevasca a cada minuto, gelando o ar e o tempo, que também parava devido a estradas completamente abarrotadas de neve e gelo, mesmo assim Knor trabalhava, afinal, tinha uma família para zelar e os amava profundamente.
No fim da grande avenida da cidade de gelo o ladrar de alguns cães se intensificou e Knor seguiu em sua direção. Deixou algumas moedas com certo homem e se arrumou num dos trenós com os cães amarrados em duas fileiras à frente, eram quatro no total. Eles puxaram com um sinal de Knor. O trenó deslizou pelo gelo.
Embaixo daquela crosta de vidro um ser enorme e branco dormia um sono de séculos a apoiar a terra, o Leviathan.